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Jogos da minha vida - King's Field
Publicado por Tarso em 07/10/2026
Um pouco de contexto
Eu conheci o PS1 por volta de 1995 em locadoras, mas foi somente em 1998 que eu passei a ter um em casa. Minha tia que morava em Caicó me deu um de presente ainda em janeiro daquele ano. No início eu não tinha nenhum jogo, então passei uns dias jogando o CD de demonstração que veio com o console. Graças a ele eu conheci excelentes jogos como Tomb Raider 2, PaRappa the Rapper, Armored Core, Intelligent Qube e até mesmo jogos não tão legais como Star Wars: Masters of Teräs Käsi. Uma coisa curiosa é que o CD demo também tinha vídeos de trailers. O meu tinha vindo com os trailers de Gran Turismo e Gex: Enter the Gecko. Eu fiquei apaixonado por ambos os jogos, então ter acesso apenas aos vídeos deles ao invés de demos jogáveis me fez sentir certa frustração.
Depois de um tempo jogando essa demo repetitivamente, fui atrás de jogos pra alugar. Nos primeiros meses eu tinha receio de rodar jogos piratas no PS1 porque achava que ia quebrar o videogame e tal, então procurei em Natal locadoras que tinham jogos originais disponíveis pra locação. Os jogos originais do PS1 eram discos com fundo totalmente preto. Lembro muito bem que os primeiros jogos que aluguei pro meu PS1 foram Goal Storm e PO’ed. PO’ed especificamente é um jogo muito louco, acho que vale a pena escrever um post sobre ele algum dia.
Manter a decisão de rodar apenas jogos originais no meu PS1 não era tão fácil, porque o console em 1998 já era amplamente pirateado e o acesso a jogos piratas era infinitamente mais volumoso. Então eu não tinha acesso aos jogos lançados mais recentemente, porque não era possível encontrar os discos originais deles nas locadoras. Tinha que me contentar com um acervo mais limitado de jogos mais antigos.
Agora sim: King’s Field
Sempre que eu ia na locadora alugar um jogo ficava andando pelas estantes tentando escolher o que levar. A esmagadora maioria do acervo de jogos originais continha títulos totalmente desconhecidos por mim. Então algumas vezes acabei levando pra casa jogos aleatórios que eu julgava se seriam bons ou ruins pela capa. Nessa jornada descobri jogos que eu gostei muito, como PO’ed que eu já citei, e outros que eu acabei não gostando tanto como Loaded.
Até que num belo e ensolarado sábado de manhã fui na locadora, me deparei com essa capa aqui e decidi levar.
Jogo com nome totalmente aleatório com capa totalmente aleatória. Nessa época eu já tinha jogado alguns RPGs, então a imagem me remeteu a algum RPG medieval e por isso me interessou. Cheguei em casa mais ou menos um pouco antes do almoço, coloquei o jogo no PS1 e liguei. Acompanhei na tela da TV a reprodução de uma animação em primeira pessoa de alguém subindo a escada de um castelo até o topo, que tem uma espécie de terraço de onde dá pra contemplar a ilha de Melanat, o lugar onde o jogo se passa.
Durante o vídeo são explicadas algumas coisas sobre a trama do jogo. Diz-se que a ilha foi dominada por uma misteriosa escuridão, e que ninguém ousava ir até lá porque ela seria controlada por algum deus ou demônio. Segundo a lenda, ninguém deve se aproximar da ilha porque esse deus ou demônio estaria adormecido na escuridão e seria despertado em breve. Fora isso, o jogo não explica muita coisa; ao passar pela tela título e pelos menus, comecei o jogo em um lugar que parecia a margem de uma praia com aspecto cavernoso.
E aí percebi como era a jogabilidade. Se tratava de um RPG de ação em primeira pessoa. Percebi também que não havia absolutamente nada me guiando sobre o que fazer ou pra onde ir, então comecei a explorar a praia em direções aleatórias. E cada passo que eu dava fazia minha paixão crescer absurdamente. Joguei alguns minutos, fiz uma pausa pra almoçar, voltei pro meu quarto e passei o resto do fim de semana aproveitando o jogo. Consegui chegar relativamente longe, mas o jogo era brutalmente difícil pra mim e o tempo do aluguel não foi suficiente pra chegar até o final. Devolvi na segunda-feira e nunca mais aluguei de novo, então passaram-se vários anos até que eu pudesse voltar a jogar King’s Field.
Falando mais sobre os aspectos técnicos do jogo, ele me chamou a atenção em muitos pontos:
1) Jogo totalmente em 3D
Primeiro, King’s Field é um jogo renderizado totalmente em 3D. Nessa época os jogos em primeira pessoa mais tradicionais tinham cenários 3D mas renderizavam itens e inimigos usando bitmaps 2D. Isso é algo que me impressiona até hoje, especialmente se parar pra pensar que se trata de um jogo de 1995.
2) Progressão não linear
A ilha de Melanat constitui o mundo do jogo com salas e áreas diferentes, e nem todas são acessíveis imediatamente. Você precisa explorar e descobrir maneiras de acessá-las. Ou seja, a estrutura de progressão não era tão tradicional, comparando-se com o que era mais comum na época. Hoje isso pode não parecer tão raro, mas em 1995 o design linear baseado em fases e estágios era mais onipresente.
3) Só tem um carregamento no começo do jogo
Quando você começa o jogo, você espera o jogo carregar o mundo todo de uma vez e depois não espera mais até a sessão de jogo terminar. Em alguns momentos você atravessa corredores que são usados pra carregar a próxima área sem interrupções. Importante mencionar aqui que o ritmo da jogabilidade é um pouco lento, então acho que isso foi feito assim de propósito pro jogo poder ter tempo hábil pra carregar o que precisa.
4) A história é contada em pedaços
Como mencionei, não existe muita explicação sobre por que você foi parar na ilha de Melanat e pra onde você tem que ir. Mas conforme você vai explorando a ilha, conversando com NPCs e vendo descrições de itens, você vai pegando um pouco de contexto. Só que esse contexto é retalhado, então é preciso fazer um esforço para juntar as partes e entender o todo. King’s Field é um jogo da From Software, a desenvolvedora de jogos que ganhou bastante fama depois de começar a publicar os jogos que originaram o gênero soulslike. Podemos ver que esse estilo de contar uma história de maneira fracionada já era característica da From Software desde os primórdios.
Jogando King’s Field no PC
Os anos se passaram, e no fim do ano 2000 minha mãe comprou meu primeiro PC. Foi a partir daí que comecei a acessar a internet e usar emuladores. Claro que ainda demorei alguns anos pra emular jogos de PS1, mas eventualmente passei a rodar alguns jogos de PS1 pelo ePSXe.
King’s Field era um jogo que tinha ficado na minha cabeça desde 1998, então ele foi um dos primeiros jogos que emulei no PC quando pude. Eu não tinha um controle disponível, por isso jogava no teclado. Eu tinha mapeado os botões pra alguma configuração que ficasse confortável pra jogar e assim fui. Mas também não joguei o suficiente pra zerar nessa época, e nem mesmo em novas tentativas que fiz no PC depois dessa primeira. Continuei com essa dívida comigo mesmo por mais alguns anos.
Os jogos da série King’s Field
Nesse meio tempo a paixão pelo jogo me fez acessar muitos fóruns e sites como o GameFAQs pra aprender mais sobre ele, ver manuais, discussões, etc. E aprendi algo que eu ainda não sabia: esse King’s Field do PS1 era parte de uma série com 4 jogos. São eles:
- King’s Field (PS1) - lançado apenas no Japão em 1994 (e já era totalmente renderizado em 3D)
- King’s Field II (PS1) - lançado como King’s Field nos EUA, é sobre esse que eu tenho falado até agora
- King’s Field III (PS1) - lançado como King’s Field 2 nos EUA
- King’s Field IV (PS2) - lançado como King’s Field: the Ancient City nos EUA
Aprendi que os três primeiros jogos são parte de uma trilogia (muito interessante na minha opinião), e que a história do quarto jogo é independente dos anteriores. Mas não vou falar sobre a história dos jogos aqui, só esse assunto já daria um post imenso. Mas se quiser saber mais sobre ela, eu recomendo fortemente ler esse artigo aqui.
Imagine minha alegria quando descobri que eu ainda tinha mais jogos da série pra jogar! Que coisa chata hein?
O PS1 Classic
A partir de certo momento da vida eu fiquei sem ter um computador pessoal pra emular consoles. O único computador que eu tinha acesso era o do trabalho e eu não podia rodar emuladores nele por motivos óbvios. Eu estava em busca de alguma plataforma relativamente barata que eu pudesse plugar na TV e usar pra emular coisas.
Até que em 2019 eu comprei um PS1 Classic, que na época ainda não custava tão caro: consegui comprar por 240 reais. Logo depois dessa época o preço dele subiu absurdamente. No início eu jogava apenas os jogos que vinham gravados nele de fábrica, mas depois de um tempo começaram a aparecer ferramentas de desbloqueio pro console. Muitas delas modificavam o firmware original, mas eu conheci uma que conseguia desbloquear o PS1 Classic sem fazer isso: o Autobleem.
Eu instalava o Autobleem e os jogos num pendrive, espetava no console e voilá! Podia emular qualquer coisa de PS1 e dos consoles de gerações anteriores. Claro que um dos primeiros jogos que pensei em emular nele foi King’s Field. E, em 30 de janeiro de 2024, finalmente zerei o jogo e paguei essa dívida que tinha comigo mesmo há tanto tempo (mais precisamente, desde 1998). Era o fim de uma jornada de 26 anos.
Ainda vale a pena jogar King’s Field hoje em dia?
Sei que o post foi longo. Mas se você chegou até aqui, pode ter certo interesse em experimentar o jogo.
Como falei antes, King’s Field é um jogo que tem uma jogabilidade com um ritmo lento. Esse aspecto em particular, junto com os gráficos poligonais defasados, pode afugentar a maioria das pessoas. Então eu acredito que pouca gente nos dias de hoje vai se interessar pelo jogo em seu estado bruto.
Mas eu tenho uma boa notícia. Atualmente tem bastante gente usando IA pra fazer recompilações de jogos de consoles antigos para o PC, e King’s Field não foi uma exceção. Apresento o projeto Verdite2, um port de King’s Field para o PC. Com ele, você consegue jogar o jogo num ritmo mais rápido, com um FPS maior e usando WASD + mouse. Além disso, tem muitas outras melhorias. Se você quer conferir o jogo, essa é a melhor forma de fazer isso hoje em dia.
“I just want to live quietly and fish”
King’s Field se tornou um jogo muito marcante pra mim. Ainda encho o saco dos meus amigos falando sobre ele depois de tanto tempo. Conheci ele numa época em que eu tava completamente fascinado por jogos 3D. Fico na torcida que a From Software consiga portar os jogos pros consoles atuais, ou quem sabe refazê-los?
Mas existem bons jogos independentes sendo lançados hoje em dia que são baseados em King’s Field. Acho que um dos mais conhecidos é Lunacid, mas dá pra encontrar outros dando uma navegada no Steam.
Você tem alguma relação com King’s Field? Já jogou algum jogo da série antes, ou ficou curioso pra jogar depois de ler esse post?
2 comentários.
Bonifacio2
1791405480673
Tarso
1791406287562